Um mergulho no luto

Eu refleti um pouco sobre postar ou não esse texto, mas quando percebi que ele poderia ajudar alguém, assim como o ensaio que eu cito me ajudou, resolvi que não deveria mais pensar duas vezes.

É uma reflexão pessoal sobre o luto, e se você está passando por isso, ou conhece alguém que tenha perdido alguém muito próximo, vale a leitura.

E se nunca passou por isso, espero que dê pra refletir um pouco e entender os outros. Afinal, empatia nunca é demais, certo?

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O momento em que perdemos alguém muito próximo é decisivo na formação da nossa personalidade. Nem sempre é possível entender o que mudou em nós, ou se essa mudança é perceptível para os outros, mas sabemos que algo está diferente. No entanto, acredito que essa sensação venha um pouco depois. O primeiro momento é um nocaute, um baque surdo que ecoa em nossos ouvidos. Atordoados, não conseguimos sair do chão, e ali permanecemos alguns meses. Quando resolvi escrever sobre isso, tentando compreender esse sentimento de tristeza tão profunda que beirava a loucura, descrevi que era como acordar dentro de um pesadelo, sem conseguir me conectar com a realidade. Era como se eu nunca tivesse acordado de verdade. Esse texto ficou parado em um canto durante um bom tempo, sem eu sentir necessidade de voltar a ele.

O que mudou foi o meu contato com o ensaio A Grief Observed, de C.S. Lewis. Nessa reflexão ele afirma que sua sensação era de sentir medo, sem realmente senti-lo. Acredito que misturado a isso venha o sentimento de insegurança, que acompanha grandes mudanças. Não saber como o mundo vai ser agora que tudo está tão diferente e, possivelmente, o medo de se perder na tristeza. Mas o trecho que realmente me chamou atenção foi o seguinte: “There is a sort of invisible blanket between the world and me. I find it hard to take in what anyone says. Or perhaps, hard to want to take it in. It is so uninteresting” [Há um tipo de lençol invisível entre o mundo e eu. Acho difícil compreender o que dizem. Ou, talvez, difícil de querer compreender. É tão desinteressante]. (em tradução livre)

Poucas pessoas descrevem com tanta precisão e de forma tão bela seus sentimentos. Até então eu não conhecia essa sensação como universal para muitos que compartilham uma perda. Essa catatonia que nos afasta do mundo. Curiosamente, lendo Norwegian Wood, de Haruki Murakami, me deparei com algo parecido. O livro trata a juventude do protagonista de maneira triste, repleta de perdas e solidão. Em um desses momentos em que Toru se entrega à completa desolação, ele descreve: “Vivi estranhamente os três dias que se seguiram, com a sensação de caminhar no fundo do mar. Era incapaz de ouvir direito o que as pessoas me diziam e, quando eu dirigia a palavra a alguém, não era compreendido. Era como se houvesse uma membrana ajustada hermeticamente ao redor do meu corpo. Por causa dela, eu era incapaz de manter contato com o mundo exterior”.

Acho muito interessante que pessoas de épocas e lugares tão distintos descrevam a sensação de forma tão semelhante. Talvez outro termo que possa ilustrá-la seja o limbo. Não no conceito católico, que acredita que consista em um lugar sem a presença de Deus, para onde vão aqueles que não merecem o céu nem o inferno. Mas no sentido mais geral da palavra, de vazio e inércia. Bem, se pensarmos de forma mais abstrata, o limbo católico também pode ser comparado a esse processo do luto. Se é um lugar do pós-vida e privação de Deus, podemos voltar ao texto de C.S. Lewis que, apesar de extremamente religioso, passa a questionar a presença dessa divindade, e a considerar que ela é capaz de coisas terríveis. Ele diz: “But go to Him when your need is desperate, when all other help is vain, and what do you find? A door slammed in your face, (…). It might be an empty house. Was it ever inhabited? It seemed so once” [Mas vá a Ele quando estiver desesperado, quando qualquer outra ajuda é vã, e o que encontrá? Uma porta fechada na sua cara, (…). Talvez seja uma casa vazia. Terá ela sido habitada algum dia? Pareceu tanto uma vez.]  (em tradução livre)       

A minha conclusão é que a tristeza realmente nos afasta do mundo e dos outros. Não só psicologicamente, mas também intencionalmente, por nos acharmos um transtorno. Em geral, pessoas não sabem lidar com a dor alheia e, por isso, acreditamos que nos tornamos um incômodo. De certa forma porque trazemos a lembrança de que a morte vai chegar e, se ainda não aconteceu com o outro, vai acontecer. Acho que conviver com pessoas que já passaram pelo processo de luto nesse período é mais reconfortante do que estar com pessoas que nunca passaram por isso.

Em primeiro lugar porque ver alguém que já sofreu e ficou bem nos dá esperança de que eventualmente também ficaremos bem. Procurar pessoas que se recuperaram de grandes traumas pode ajudar a perceber que essa recuperação não é tão impossível assim. E em segundo lugar porque grande parte dessas pessoas aprendem a respeitar melhor o espaço que o outro precisa. Nem sempre é necessário atenção constante, ou aconselhamento. Às vezes só saber que tem alguém disponível para te fazer companhia, sem necessariamente trocar palavras, ou que não ficará constrangido com suas lágrimas, e respeitará sua necessidade de falar repetidamente da pessoa perdida, já é o suficiente.

Pessoalmente, acredito que justamente o que me afastou dos outros foi saber que eu não teria capacidade de segurar minhas lágrimas. Elas vinham de repente, com bastante frequência, e tudo que eu queria era deixar elas correrem sem precisar pedir desculpas a ninguém. Eu também não queria sentir o olhar de pena dos outros, ou escutar conselhos. Aliás, há uma gama de frases feitas para serem usadas socialmente que não fazem sentido. Acho que “meus pêsames” é a pior delas porque não há uma resposta. Um “obrigada” não faz sentido. Obrigada por se simpatizar com a minha dor, mas expressar isso de forma fria e impessoal? Um simples “sinto muito pela sua perda” funcionaria melhor.

Em algumas pessoas essas frases despertam raiva. “Ele(a) está em um lugar melhor”, “Deus quis assim”, “Chegou sua hora”. São frases vazias, sem certeza, ou ajuda alguma. Ninguém sabe ao certo se existe destino ou Deus, ou se há algum lugar no pós-vida. Citando mais uma vez C.S. Lewis: “It is hard to have patience with people who say, ‘There is no death’ or ‘Death doesn’t matter.’ There is death. And whatever is matters. And whatever happens has consequences, and it and they are irrevocable and irreversible (…). She died. She is dead. Is the word so difficult to learn?”. [É difícil ter paciência com aqueles que dizem ‘Não há morte’ ou ‘A morte não importa’. A morte existe. E o que quer que seja, importa. E o que quer que aconteça tem consequências, e isso e elas são irrevogáveis e irreversíveis. (…). Ela morreu. Ela está morta. É tão difícil de entender a palavra?] (em tradução livre)

Precisamos aceitar a morte, e essas frases “consoladoras” não ajudam em nada. Em algum momento o pragmatismo aparece com força, e todas as metáforas e eufemismos parecem ridículos. Queremos aceitar que a realidade agora é outra. Mas, às vezes, ainda é muito cedo para realmente querer ficar bem. Esse “bem” tem consequências. Ele traz junto a culpa e a sensação de uma normalidade que não existe mais. Culpa por não aceitarmos que podemos ser felizes sem alguém tão importante para nós. E a cada suspiro de paz, em que parece que a pessoa vai entrar pela porta, e que nada aconteceu, vem a lembrança como um faca no peito. E é preciso absorver tudo de novo e de novo, cansativamente.

Li que algumas pessoas sentem a presença daquele que partiu, mas acho que essa breve sensação de normalidade dure mais tempo. Uma vez, viajando com a minha avó, ela disse que pensou em contar uma situação da viagem à sua irmã, e então lembrou que ela havia falecido há mais de 10 anos. Acho isso triste e bonito ao mesmo tempo. Acredito que, de certa forma, quando tiramos essa pressão de nos lembrarmos da pessoa como ela realmente era, conseguimos uma memória mais “pura”. É uma lembrança que vem em sua forma original. E isso é um dos melhores presentes que podemos receber após a morte de alguém.

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Agradeço todos os dias pela invenção da fotografia. Sei que consigo lembrar de alguns traços do meu pai, de sua voz e algumas manias e situações. Mas dificilmente teria uma lembrança fiel como a de um retrato. Durante bastante tempo tive muito medo de que suas memórias se apagassem. Essa possibilidade era desesperadora. Ainda hoje, 18 meses depois, me pego preocupada com isso. Por isso gosto muito de sonhar com ele. Em alguns desses sonhos tenho completa noção da realidade, e recebo cada abraço como um verdadeiro reencontro. Em outros, parece apenas uma breve situação real, pouco extraordinária. Como, por exemplo, a vez que eu sonhei que ele reclamava que eu tinha roubado seu chocolate. Confesso que acordei bastante feliz.

Mas conversando sobre isso com um amigo que perdeu ambos os pais, ele me disse que esses sonhos são um martírio para ele. Podemos tentar encontrar pontos em comum na forma das pessoas lidarem com o sofrimento, mas é perigoso generalizar. Contudo, acredito que seja seguro afirmar que todos mudam durante o processo do luto. Como disse anteriormente, é difícil identificar exatamente o que mudou, e se essa mudança é explícita. Mas ela existe, e é uma das únicas certezas que temos de início, pois não nos sentimos mais como nós mesmos. É difícil se reconhecer.

Acho que a primeira mudança perceptível é a relação com a morte. Pode haver um aumento do medo da morte, ou ele pode desaparecer. Mas esse sentimento é inconstante. Apesar de ter perdido completamente o medo de morrer durante um tempo, hoje já sinto esse medo repentino de volta, mesmo sabendo que ele é inútil. Há também quem tema a morte não por ela própria, mas por preocupar-se com o sofrimento de parentes e amigos mais próximos. Em segundo lugar vem a necessidade de Carpe Diem. Uma vontade de aproveitar tudo ao máximo e não deixar nada pra depois, pois não sabemos se esse depois existirá. Com o tempo essa mudança também vai desaparecendo, pois precisamos planejar o amanhã. Não há como gastar todo nosso dinheiro em viagens, e agir como se o dia seguinte não fosse chegar. Porque pode ser que ele chegue, e precisamos estar preparados.

Mas então, que mudança é definitiva? Essa pergunta é difícil de ser respondida. É evidente que passamos a carregar um peso, mas não necessariamente ficamos mais tristes (a longo prazo). Pelo menos, não todos. Quando a dor começa a passar, e a saudade fica, o que mais fica? Não diria que me tornei uma pessoa melhor ou pior. Talvez melhor no sentido de me reconhecer mais forte do que imaginava, e encontrar em mim uma força, uma proatividade que antes não era tão evidente, mas sofrer não nos torna santos, muito menos nos torna iguais. Alguns aprendem a respeitar o sofrimento alheio, mas é impossível realmente saber como é a dor do outro. A verdade é que, durante os momentos de calmaria, não sabemos nem mesmo como é a nossa própria dor.

Eu gostaria muito de encontrar uma resposta, mas essa mudança é uma certeza e mistério ao mesmo tempo. Como diz a música Tonight Tonight da banda norte-americana The Smashing Pumpkins: “The more you change, the less you feel”. O “eu pós-perda” não é o mesmo eu anterior, mas não podemos afirmar quem ele é.

Acredita-se que antigamente a morte era melhor compreendida. Ela fazia parte da vida, então aceitavam isso com mais naturalidade. Hoje parece ser um tabu. Falar da morte é errado, como se não fosse chegar para todos nós. Com o avanço da medicina, o ego humano foi mais inflado, acreditando que esse fim poderia ser postergado ao máximo. Os rituais (no Ocidente) perderam força, as pessoas desaprenderam a lidar com as suas perdas e as perdas dos outros. Queremos sucesso e estar acima dos outros, e qualquer “obstáculo” faz parecer que fomos derrotados.

Passar pelo processo de luto não é motivo de vergonha, e a morte, em si, não é um destino horrível. A separação sim. Ela é uma mudança definitiva, e nada que nos tira do nosso caminho tranquilo é fácil. Mas o ser humano precisa da morte. Não apenas pela questão da superpopulação, mas porque seriamos tomados pela inércia caso vivêssemos para sempre. Saber que nós temos prazo de validade nos ajuda a tomar atitudes, e querer fazer coisas. Queremos deixar a nossa marca no mundo, então produzimos arte, tentamos deixar um legado.

Além disso, seria difícil mudar o mundo caso as gerações mais antigas continuassem para sempre aqui. É aceito que pessoas mais velhas carregam pensamentos mais tradicionais, e os jovens vêm com ideias revolucionárias, de alteração da ordem vivida. As pessoas podem mudar, mas as suas crenças mais profundas em geral não mudam. Se nós, com as ideias do século XXI, tivéssemos que conviver com a mentalidade da Idade Média, com certeza viveríamos batalhas intermináveis de convicções. Já encontramos muita dificuldade para o progresso. Se houvesse mais de 2000 gerações passadas em nossas costas, com certeza o mundo não seria como é hoje.

Por isso, precisamos aceitar a morte. Não necessariamente sorrir para ela, mas nos despirmos dessa vaidade que nos faz pensar que somos eternos. Não precisamos ser. E o luto é um processo natural da vida, que precisa ser experienciado. Acho de grande utilidade comparar sentimentos, e oferecer diferentes formas de lidar com eles. É impossível ser feliz o tempo todo, e não devemos mentir, e fingirmos que não nos importamos. Precisamos nos importar, e o sofrimento faz parte da vida. Mas, assim como ela, ele não é eterno. Pode durar mais para uns ou para outros. Mas o alívio chega, nem que com ele chegue junto um suspiro de morte.

 

Escrito em 08/07/2016
por Clarice Motta

7 on 7 – Junho

O tema desse mês é Infância e, pensando nisso, resolvi entrar na onda do Facebook de “fatos aleatórios sobre mim” e resolvi fazer “fatos aleatórios sobre a minha infância”.

Aí vai:

1- Eu lia muito! Bem mais do que agora, acredito. E a maioria dos livros que me marcaram eu li quando era criança.

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2- Eu fiquei VICIADA no jogo de dinossauros do meu Game Gear, que consumia pilha pra caramba. Aí (contra a minha vontade) venderam o Game Gear e me deram um Gameboy (ei, meninas também jogam!!). Eu adorava o da Corrida Maluca, Pokémon e MIB.

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3- Eu amava Rugrats, As meninas super poderosas, Teen Titans, Coragem, O Cão Covarde, As aventuras de Jackie Chan, A turma do bairro, Hey Arnold, Mansão Foster para amigos imaginários, Digimon, Sakura, Sailor Moon, O laboratório de Dexter, etc etc etc. Na verdade ainda amo e já da pra acrescentar uns desenhos do Cartoon Network na lista (Hora da Aventura e Apenas um Show!!!).

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4- A parte mais legal de brincar de boneca era montar as famílias, as casas e decidir a história. Depois a gente cansava e ia ver um filme.

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5- Eu tive uma fase louca por sapos. Não sei se isso surgiu com o Keroppi, mas eu saí pedindo um monte de coisa de sapo e ganhei o Alex no Natal de 2005.

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6- Dava pra botar fandangos, sorvete de danoninho, e um monte de bobagem aqui. Mas vai Toddynho porque Toddynho é  vida.

#I’mTheKidYourParentsWarnedYouAbout

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7- Como sou uma 90’s kid peguei a época do VHS.

Na moral, era um saco ficar dando rewind.

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FOTO BÔNUS:

Como eu to a louca das fotos essa semana vou postar mais uma de brinde!

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O que vocês lembram da infância de vocês?

Participantes:
Gabriele OrtizFotografeiFlores de NovembroBlog Confident.

Beijundas!

Photoshoot com a Lu Mascarenhas

Outro dia fui tirar umas fotos com a lu, e as fotos ficaram tão lindas que não resisti e resolvi postar aqui!

Tem foto pra caramba porque foi muito difícil escolher. 😛

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Aliás, essa blusa é meu novo xodó!

Nem preciso dizer que a minha menina super poderosa preferida sempre foi a Docinho, né? ❤

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*Feliz na janelinha*Clarice-12

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Quem quiser conhecer mais do trabalho dela é só clicar aqui:

http://luisamascarenhasfotografia.com
https://www.facebook.com/luisamascarenhasfotografia/?fref=ts

Beijo grande!

7 on 7 – Maio

Heeey!

O tema do 7 on 7 desse é Favoritos!
Me diverti bastante fazendo e espero que gostem das fotos. 🙂

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Minha varinha preferida, da minha personagem preferida (Luna Lovegood) de Harry Potter, que é um dos meus livros de ficção favoritos. 😀

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Meu quadrinho preferido! (Esse e Retalhos, do Craig Thompson)

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Panic! at the Disco é minha banda favorita há uns 10 anos já. ❤

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Vikingsssss ❤ ❤ ❤
Já é a décima vez que esses Funkos aparecem no blog, mas eles são fofos demais pra não mostrar. E essa série definitivamente está no meu Top 5 séries favoritas.

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Eu sou o Kira gente, fui descoberta.

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Mulan amor da minha vida, melhor princesa da Disney.

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To tão apaixonada por esses sapatos que acho que poderia usá-los todos os dias!

Até mais!

Participantes:

Lado MillaGabriele OrtizFotografeiFlores de NovembroBlog Confident.

(Como podem perceber, só tem 6. Estamos aceitando mais um integrante pro projeto!)

7 on 7 – Abril

A um ano atrás eu estava feliz da vida viajando pela Europa. Então, como o tema do 7 on 7 desse mês é Cidades, resolvi postar umas fotinhos antigas. 🙂

Lisboa, Portugal
6

Amsterdam, Holanda3

Arredores de Sintra, Portugal4

Praga, República Tcheca2

Berlim, Alemanha5

Frankfurt, Alemanha7

Frankfurt, Alemanha1

Blogs participantes:

Lado MillaGabriele OrtizFotografeiFlores de NovembroBlog Confident.

Até a próxima. 🙂